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Top 10 testes clínicos que deram terrivelmente errado


Artigo original por Sydney Sauer

Tradução Diego Storto


Testes clínicos são a etapa mais importante na aprovação de drogas pela FDA (Agência de Controle de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos). Sem eles, não seria possível saber se os remédios são seguros. Na grande maioria das vezes, esses testes dão certo, e o remédio é aprovado para distribuição. Porém, muito de vez em quando, um teste clínico dá terrivelmente errado. Continue lendo e aprenda sobre dez destes famosos incidentes que as empresas farmacêuticas tentam desesperadamente esconder.

 

 

“Há cinco anos, Dan, meu filho, morreu por causa de um estudo clínico na Universidade de Minnesota, um estudo para o qual não tinha nenhum diagnóstico, e um estudo do qual tentei tirá-lo sem sucesso durante cinco meses.”

 

Desde a morte repentina de seu filho, Mary Weiss vem tentando espalhar essa mensagem ao mundo.

Em 2003, seu filho, Dan Markingson, que sofria de alucinações, foi diagnosticado com esquizofrenia e internado no Centro Médico da Universidade de Minnesota, em Fairview. Pouco tempo depois, ele foi colocado em um teste clínico para o exame de três tipos de remédios contra a esquizofrenia: Seroquel, Risperidona e Zyprexa. Porém, as doses diárias de 800 mg de Seroquel começaram a piorar as suas alucinações muito rapidamente.

Desesperada, sua mãe enviou cartas, e-mails e ligou para os coordenadores do estudo na tentativa de tirar o filho do projeto. A administração, no entanto, proibiu Dan de abandonar o estudo e ameaçou interná-lo em um manicômio em caso de desistência. Mary ficou chocada com isso até ter tomado conhecimento de um fator-chave do projeto: a participação de seu filho valia $ 15.000,00 para o instituto [1].

Sem poder abandonar o projeto, as alucinações de Markingson foram ficando piores até que, por fim, cometeu suicídio, esfaqueando-se até a morte no chuveiro. No bilhete de suicídio estava escrito: “Passei por essa experiência sorrindo!” Arrasada, sua mãe processou o instituto, que se recusou a se responsabilizar por seus atos. Markingson foi um dos cinco participantes do teste a tentar o suicídio e um dos dois que conseguiram tirar a própria vida.

 

 

Em janeiro de 2016, a Biotrial recrutou 128 voluntários sadios para fazer parte do teste clínico de uma nova droga criada para combater ansiedade relacionada com câncer e mal de Parkinson. Sob a influência de pequenas doses da droga, os pacientes não relataram efeitos colaterais. Mas, com a intensificação das doses, os problemas começaram a surgir. Em especial, seis dos participantes ficaram doentes e foram imediatamente transferidos para a sala de emergência.

Um desses pacientes, um homem sadio de uns 28 anos, teve a morte cerebral confirmada apenas uma semana após a internação no hospital e duas semanas após o início do teste. Os outros cinco pacientes permaneceram em condição estável, mas os médicos preveem que muitos sofrerão danos cerebrais e deficiências mentais irreversíveis.

Mesmo sendo o primeiro teste da droga em seres humanos, os administradores do teste já sabiam que havia graves problemas com a ela. Uma fonte de notícias da França revelou que um pré-teste produziu efeitos similares em cães, matando vários e deixando outros com danos cerebrais [2]. Ainda assim o teste foi conduzido em seres humanos, com terríveis resultados.

 

A talidomida foi fabricada pela primeira vez na Alemanha, a princípio com o objetivo de tratar infecções respiratórias. Hoje, muitas pessoas conhecem esta droga por causa de seus efeitos adversos na gestação. Cerca de 10.000 crianças nascidas durante os anos 1960 sofreram com graves deficiências, tais como braços e/ou pernas faltando e fissuras palatais, resultantes desta droga.

Diferente dos outros testes na lista, a parte misteriosa do teste clínico com talidomida foi que tudo correu surpreendentemente bem. Durante a fase de patenteamento e aprovação, os pesquisadores testaram a droga em animais, porém se esqueceram de observar os efeitos na prole. Não sendo possível morrer de uma overdose do remédio, ele foi julgado seguro, e alcançou as prateleiras em 1956 [3].

Foi só em 1961 que o médico australiano William McBride descobriu a ligação da talidomida com as deformidades. Mas, até então, todos os testes clínicos tinham concluído que a talidomida era um remédio seguro e que podia ser livremente vendido, e 10.000 pessoas pagaram o preço.

 

Jesse Gelsinger tinha 18 anos quando se tornou participante de um estudo que testava a segurança da geneterapia em crianças com mutações genéticas severas no fígado. Como outras crianças no estudo, ele nasceu com uma doença chamada OTC (Deficiência da Ornitina Transcarbamilase), que impedia seu fígado de eliminar os excessos de amônia, o que os pesquisadores tentaram combater com a injeção de um vírus de resfriado. Porém, uma dose alta do remédio seria a última de Gelsinger. Em 17 de setembro de 1999, os sintomas rapidamente evoluíram de icterícia para falência múltipla dos órgãos e, por fim, morte cerebral [4].

A FDA investigou a fundo esta morte e descobriu algumas atitudes misteriosas e irresponsáveis por parte dos administradores. Sabe-se que Gelsinger estava no grupo final de pacientes e que cada grupo antes dele havia sofrido reações severas à droga. Mesmo assim o estudo continuou. Em segundo lugar, os níveis de amônia de Gelsinger estavam tão altos que os próprios administradores deveriam tê-lo dispensado do teste. A princípio, ele seria mantido como reserva, mas um paciente desistiu, e ele foi incluído às pressas no estudo.

 

Ao longo dos anos 2000, Anil Potti era uma estrela médica em ascensão. Ele prometia tratamentos para o câncer com chances de cura de até 80%, e profissionais da área médica acreditavam que suas descobertas poderiam salvar até 10.000 vidas ao ano. Porém, em 2015, isso tudo mudou. Potti foi declarado culpado de incluir falsas informações em um manuscrito, nove artigos acadêmicos e um requerimento de bolsa, então os resultados de seus estudos foram invalidados.

Uma mulher, em especial, afetada por essa fraude foi Joyce Shoffner [5] paciente n. 1, em um teste de julho de 2008 feito por Potti. Com a garantia de que a terapia de Potti curaria 80% dos cânceres, Joyce, entusiasmada, fez o cadastro para ingressar no estudo para que a ajudasse a se curar do câncer de mama. Ela foi submetida a uma dolorosa biopsia, em que os médicos retiraram amostras de tecido por meio da inserção de uma longa agulha em baixo do braço que ia até o pescoço. Então, ela passou pelo regime quimioterápico de Adriamicina-Citoxan (AC), porém, dois anos depois, descobriu que os resultados do estudo foram invalidados devido ao envolvimento de Potti. Hoje em dia, Joyce não tem mais câncer de mama, mas convive com as coagulações sanguíneas e a diabetes provocadas pelo esquema AC e também com transtorno de estresse pós-traumático resultante do próprio teste.

 

Em janeiro de 2017, três mulheres entraram com visão em um estudo, mas saíram sem ela. Com idades variando dos 72 aos 88 anos, todas as três mulheres sofriam de degeneração macular, uma doença dos olhos estreitamente relacionada à velhice. Cada uma das pacientes pagaram $ 5.000,00 para ter os dois olhos tratados com a terapia de células-tronco, um processo que era “tanto atípico quanto inseguro”, de acordo com vários especialistas oftalmológicos [6].

Poucos dias após a intervenção, cada uma das três mulheres relataram graves efeitos colaterais. Dentre eles, sangramento e deslocamento de retina. Uma das pacientes perdeu totalmente a visão, enquanto as outras duas perderam a maior parte. As pacientes não devem recuperar a visão. Mas os cientistas sabiam que o teste continha defeitos desde o início. Primeiro de tudo, as pacientes tiveram de arcar sozinhas com o preço das intervenções, um sinal claro de pesquisa ilegítima. Além disso, os profissionais da área médica tentaram apagar o histórico do teste. Ao fazer uma consulta online aos registros governamentais do teste, só é dito que o estudo foi “abandonado antes de adesão”,  o que claramente não foi o caso.

 

Em julho de 2016, três pacientes adultos com leucemia morreram por causa de um teste de um novo remédio a nível celular. Batizada de CAR-T, esta nova opção de tratamento deveria atacar as células malignas até que desaparecessem totalmente [7]. A tecnologia era um fenômeno emergente que muitos pesquisadores chamavam de “o quinto pilar” no tratamento do câncer, mas as esperanças foram logo arruinadas pelos resultados do estudo em 2016.

A causa da morte dos três pacientes foi inchaço cerebral, conhecido na área da saúde como edema cerebral. Representantes da Juno, empresa farmacêutica patrocinadora do teste, admitiram que o edema cerebral é um tanto comum em pacientes que receberam tratamentos com células CAR-T, assim como reações no sistema imunológico e aumento da toxicidade neurológica.

Após a divulgação da notícia sobre as mortes, as ações da Juno caíram 27%. Os procedimentos adotados estão atualmente sendo apurados pela FDA, e não está claro se receberão permissão para a retomada dos estudos.

 

Em 1996, Nicole Wan, estudante universitária do 2º ano da Universidade de Rochester, precisava ganhar algum dinheiro extra. Assim, ela decidiu fazer o cadastro, sem a permissão dos pais, para um teste clínico que pagava $ 150,00 [8]. Os pesquisadores introduziram um tubo por sua garganta até os pulmões para observar os efeitos da poluição em seu sistema respiratório, um procedimento comum chamado broncoscopia.

Mas o que Nicole não sabia era que eles haviam extraído mais amostras de células do que constava originalmente no esboço da proposta. E, ao extraírem mais amostras de seus pulmões, eles aumentaram a dose de anestésico, a lidocaína, para além dos níveis aprovados pela FDA. Ela foi liberada se sentindo extremamente fraca e com muita dor. Dois dias depois, ela foi encontrada morta. A autopsia revelou que níveis letais de lidocaína, devido à negligência médica no estudo, fez com que seu coração parasse de bater e o resto de seu corpo falhasse junto com ele.

 

Ellen Roche, técnica em enfermagem no Hospital Johns Hopkins, voluntariou-se para participar de um teste de asma em indivíduos sadios. O objetivo do teste era descobrir o mecanismo que impedia pessoas sadias de desenvolver os sintomas da asma, então os médicos induziram uma leve reação asmática e depois a trataram com hexametônio.

De início, a inalação deste remédio apenas fazia com que Ellen desenvolvesse tosse. Mas, conforme o tempo passava, ela foi mantida em ventilação mecânica, pois o tecido pulmonar e os rins começaram a falhar. Ela morreu um mês depois, em 2 de junho de 2001 [9]. As autoridades médicas do teste admitiram que o hexametônio “ou foi o único responsável pela doença da paciente, ou teve uma contribuição importante”. Para piorar as coisas, os participantes souberam depois do teste que o hexametônio nem mesmo era uma droga aprovada pela FDA. Esta informação não constava no formulário de consentimento, então o Hospital Johns Hopkins foi forçado a se responsabilizar inteiramente pela morte de Ellen.

 

O teste clínico do homem elefante, o mais famoso de todos os tempos, ocorreu em Londres, em 2006. O teste, que analisava um novo tratamento para o câncer chamado TGN1412, parecia inofensivo para os oito homens que participaram dele. Os profissionais da área médica haviam lhes garantido que os piores sintomas incluiriam apenas dor de cabeça e enjoo.

Mas os resultados foram muito mais pavorosos que isso. Pouco tempo depois do recebimento das doses, todos os pacientes começaram a se contorcer de dor e a vomitar [10].Um dos participantes perdeu os dedos das mãos e dos pés, enquanto outro teve que passar por uma amputação parcial do pé. O teste foi batizado de “O Teste do Homem Elefante”, porque a cabeça de um dos participantes cresceu tanto que a sua namorada brincou com ele por estar se parecendo com um elefante.

Ninguém tem total certeza do que deu errado, mas os pacientes têm algumas ideias. Um deles sugere que a regulação da dosagem tornou-o perigoso. Os pesquisadores passaram 90 minutos injetando a droga lentamente em animais, mas levaram meros seis minutos para injetá-la nos participantes humanos. Outro assevera que os primeiros testes em animais foram inexatos porque, em vez de fazer o teste em um chimpanzé-pigmeu, cujo DNA é 98% correspondente ao dos seres humanos, a agência cortou custos e utilizou um macaco, cujo DNA possui apenas 94% de correspondência. Estes homens podem nunca saber o que exatamente deu errado naquele fatídico dia, ou como ele continuará afetando as suas vidas.

 

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