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Racismo é uma doença da qual todos sofrem

Artigo original por Stephen Johnson

Tradução Igo Araujo


Fonte: Big Think

 

“Eu sou Mary Ruth e eu sou racista.”

Assim começa a reunião dos Racistas Anônimos na Igreja Congregacional de Sunnyvale, Califórnia. Ron Buford, pastor da igreja, começou o programa com uma ideia simples: e se começássemos a tratar o racismo como se fosse uma doença da qual todos sofrem?

“Quando aceitarmos o fato de que somos todos racistas, é só uma questão de variação de graus”, Reverendo Ron Buford, fundador do Racistas Anônimos, conta ao Mother Jones. “Em nossa cultura, é impossível não ser racista em algum grau.”

Fundado em 2016, o programa funciona como o Alcoólicos Anônimos: a presença dos membros é voluntária, geralmente em igrejas, e há 12 passos. O primeiro é admitir que você tem um problema, com a declaração: “Admito que sou impotente a respeito do meu vício em racismo, de maneiras que sou incapaz de reconhecer completamente, muito menos lidar com ele.”

Buford vê o programa como um passo adiante numa nação dividida:

“Não acho que percebemos que era realmente tão ruim”, Buford diz. “Nós vamos ter que falar a respeito disso”

Buford tem tentado por anos aliviar as tensões raciais através do diálogo. Como pastor, ele frequentemente começava discussões sobre relações raciais, mas as conversas acabavam improdutivas, com negros se sentindo com raiva e brancos, culpados. Segundo ele, deveria haver uma maneira melhor de resolver.

E, então, algo aconteceu enquanto Buford visitava Londres: ele notou que, como um negro, garçons nos restaurantes o tratavam de forma menos condescendente do que tipicamente nos Estados Unidos. Não que ele tenha achados os londrinos menos preconceituosos, mas os preconceitos deles tinha um foco diferente.

“Estava acontecendo [o preconceito] com os Europeus do Leste”, Buford diz, “Quando perceberam que eu era americano, não aconteceu comigo. Há algum lugar em que as pessoas não olhem com superioridade para outras? Eu não encontrei nenhum.”

Esse percepção levou Buford a repensar o preconceito:

“Nossa atenção à diferenças externas está enraizada em fatos antropológicos mais profundos”, diz.”Focar nessas diferenças externas é, na verdade, um comportamento primitivo e não nos serve mais apropriadamente. Estamos descartando pessoas com base em suas aparências, no que acreditam, no que usam, ao invés de abraçarmos suas diferenças. Não acredito que ‘raça’ exista com um fenômeno genético. Todas essas coisas são parte do mesmo fenômeno, seja idade, gênero ou usar um pano na cabeça. É tudo parte da exclusão de pessoas. Deveriás tratar isso como uma doença infecciosa.”

Buford pode estar certo. Mas, em termos logísticos, o Racistas Anônimos pode ser algo difícil de ser aceito por milhões de americanos que estão dispostos a admitir que são um pouco preconceituosos, mas não estão dispostos a dirigir até uma igreja para dizer “oi, eu sou racista” para uma roda de estranhos.

Então, de que outra forma as pessoas se livram de seus preconceitos? Essa foi a pergunta explorada num episódio recente do podcast NPR’s Invisibilia:

“Esses tipos de tendências não-intencionais são muito comuns”, disse Will Cox, um psicólogo que estuda preconceito na Universidade de Winconsin-Madison. “Elas emergem de nossos mecanismos de aprendizados.”

Cox é parte de um grupo de pesquisadores que enxergam o racismo como um hábito ruim, como roer as unhas ou fumar. Nós aprendemos racismo, Cox diz, como aprendemos a maior parte das coisas: fazendo repetidas associações de conceitos. Isso reforça as conexões entre os neurônios no cérebro.

Infelizmente, estereótipos se formam da mesma maneira: cada vez que esbarramos em um, as conexões se tornam mais fortes em nossos cérebros. Tornando tudo ainda pior, como o co-apresentador do Invisibilia, Alix Spiegel explicou, programas na mídia frequentemente mostram estereótipos raciais de maneiras que não representam a realidade estatística:

“Por exemplo, se um crime é reportado no noticiário e foi cometido por negro, é duas vezes mais provável que mostraram a foto do criminoso do que se tivesse sido cometido por um branco.”

Estereótipos são difíceis de combater por causa do modo com o cérebro aprende:

“O cérebro humano é muito bom em aprender coisas, mas não é muito bom em ‘desaprendê-las’”, Cox diz.

Nos últimos anos, várias organizações se voltaram para programas de intervenção para reduzir o preconceito nos locais de trabalho. O sucesso desses programas é questionável e, pior, eles podem, na verdade, ser contraprodutivos.

Mas Cox e Patricia Devine, a psicóloga que desenvolveu a ideia de viés implícito e racismo como hábito, desenvolveram um programa de intervenção que parece estar funcionando. Apelidado como a “Abordagem Madison” por um artigo no The Atlantic, o programa deles enquadra o racismo como um hábito moralmente neutro, o que é importante, porque as pessoas podem surtar se percebem seus preconceitos como uma falha moral.

Partes chaves do programa de intervenção incluem:

  • Detectar: ser capaz de identificar os pensamentos preconceituosos quando eles aparecem;
  • Refletir: de maneira neutra, sem julgamentos, refletir sobre o motivo desses pensamentos aparecerem;
  • Rejeitar: substituir pensamentos preconceituosos por outros alternativos. Quando tentar entender o comportamento de alguém, tente desenvolver o hábito de procurar por explicações situacionais ao invés de raciais, sugere Cox.

Devine e Cox não acreditam que o método funcione como mágica, que acabará com o racismo. Ainda assim, é um dos poucos programas que estão tendo resultados positivos.

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