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Pós-modernistas não entendem psicologia evolutiva

Artigo original por Reza Ziai

Tradução Igo Araujo


 

“Wilson Racista, você não pode se esconder, nós o acusamos de genocídio” — um membro do Comitê Internacional Contra o Racismo (antes jogar uma jarra d’água na cabeça de E. O. Wilson), 1978

 

Ao conversar com psicólogos evolucionistas, não é incomum que eles se lamentem e reclamem das disparidades entre suas perspectivas e as dos outros membros de seus departamentos. As inclinações filosóficas em muito do discurso das ciências sociais estão impregnadas dos escritos críticos de Kant, Rawls, Adorno, Marcuse, Foucault e outros pensadores pós-modernistas. Isso significa, para psicólogos evolucionistas, que a mera menção de “Darwin” pode disparar uma vasta gama de respostas que variam do desrespeito passivo à tentativas ultrajantes de destruir a carreira de alguém (como tentaram fazer com Napoleon Chagnon, que mostrou que agressão e estratégias de sequestro de parceiras entre os Yanomamö eram estratégias adaptadas pela evolução).

A preocupação com a liberdade acadêmica e as guerras culturais nas universidades sobre a liberdade de expressão também aumentaram drasticamente em outros domínios. Mais recentemente, a palestra de Anne Coulter em Berkley levantou preocupações, por provocar a violência do grupo de extrema-esquerda conhecida como Antifa — resultando no cancelamento da palestra. Outros oradores e palestrantes conservadores também foram criticados e atacados abertamente. Intelectuais como Jordan B. Peterson e Jonathan Haidt foram duramente atacados, enquanto pessoas como Ayaan Hirsi Ali e Charles Murray enfrentaram protestos violentos.

Mas como tamanho desdém por pessoas como E.O. Wilson (que cunhou o termo sociobiologia), Murray e Chagnon surgiu? Por que tantos acadêmicos e cientistas sociais desaprovam certos pontos de vistas, como a psicologia evolutiva, em particular? Há algumas razões e, dependendo das circunstâncias, pensadores pós-modernistas frequentemente invocam uma ou mais em suas polêmicas. Independentemente de qual crítica seja atirada contra a psicologia evolutiva, quase todas elas parecem dançar ao redor de mal-entendidos.

Para contextualizar, uma breve explicação do que é chamado “O Paradoxo do Banqueiro” pode vir a calhar. O paradoxo é esse: um banqueiro sabe que pessoas que mais precisam de dinheiro são as com menos chances de pagar um empréstimo, e as pessoas que menos precisam de dinheiro são as com mais chance de quitar a dívida. Para reduzir os riscos financeiros, o banqueiro, por conseguinte, muito provavelmente, não irá emprestar dinheiro para aqueles que mais precisam.

Embora desanimador, não deveria ser surpreendente. Então, o que o Paradoxo do Banqueiro tem a ver com o desprezo repetitivo que os pós-modernistas têm contra a psicologia evolutiva? É bem conhecido que a direita política (evangélicos ortodoxos e muçulmanos) irão rejeitar a evolução porque ela ameaça suas crenças sobre o design inteligente. No entanto, o que é menos discutido é porque cientistas sociais, cuja maioria tende à esquerda, rejeita a psicologia evolutiva sobre bases morais e éticas. Afinal, é a esquerda que é rápida em afirmar que Evolução é um fato. Se a esquerda ama tanto assim a evolução, porque o ódio à psicólogos evolucionistas?

Para ajudar a entender o Paradoxo do Banqueiro, em termos evolutivos, imagine que você um macho primitivo, na savana africana, milhões de anos atrás e você encontra uma das duas seguintes situações: na primeira, você encontra uma fêmea primitiva, que é velha, está ferida e mostra sinais de estar doente. No segundo cenário, você vê uma fêmea primitiva, jovem, saudável e demonstra nenhum sinal evidente de doenças. De maneira simplista, nossos ancestrais tinham um dilema parecido com o do banqueiro: eles têm que tomar uma decisão crítica sobre quem ajudar. Já que ajudar uma pessoa em perigo pode ser potencialmente danoso para quem ajuda, se um grupo de hominídeos decidisse ajudar, indiscriminadamente, em casos como o primeiro, eles teriam falhado em ser nossos ancestrais.

Um dos maiores equívocos a respeito da psicologia evolutiva está aqui: é a falsa crença que, de alguma forma, ela justifica, intencionalmente, contratos sociais trágicos ao invés de contratos mais igualitários e, portanto, faz apologia ao Darwinismo Social.

A filosofia do Darwinismo Social, que é frequentemente associada ao filósofo americano Herbert Spencer, é baseada numa orientação política que pede por menos regulações governamentais, para assegurar que processos evolutivos sigam naturalmente e sem obstruções. A crença era de que as sociedades humanas, assim, produziriam o estoque dos “mais fortes”. A premissa era de que qualquer assistência do governo interferiria nas leis naturais de sobrevivência do mais apto e, portanto, impediria a sociedade de alcançar a perfeição. Porque a biologia e a política deram à luz ao Darwinismo Social, atrocidades (mais notavelmente o Holocausto, o Movimento Eugenista Americano e a escravidão) se tornaram coloquialmente associadas à psicologia evolutiva. A conexão parece ter grudado como cola. De fato, apesar das décadas de esclarecimentos, pós-modernistas, acadêmicos e cientistas sociais continuaram a acusar psicólogos evolucionistas de justificar uma hoste de violações aos direitos humanos. Em todo caso, os dedos apontados são resultado de pelo menos um ou mais mal-entendidos. Este artigo pretende discutir esses mal-entendidos e oferecer alguns esclarecimentos.

É preciso mencionar, logo de cara, que não há nenhum biólogo ou psicólogo evolucionista de credibilidade que defenda ou postule que “o forte sobrevive e o fraco morre” deveria ser usado como base para a estrutura da sociedade. Na verdade, muitos gastam significante parte de suas carreiras dizendo exatamente o oposto, ao destacar as diferenças entre evolução biológica e evolução cultural.

Não são só cientistas sociais que têm um entendimento grosseiro da psicologia evolutiva — mesmo os leigos parecem pensar que se algo evoluiu deve ser, portanto, também moral e bom. Não deveria ser preciso dizer (mas o fato de que há a necessidade prova o contrário) que só porque algo como genocídio, escravidão ou estupro podem ter dado uma vantagem evolutiva para alguns de nossos ancestrais, no passado, não quer dizer, de maneira alguma, que é apropriado hoje ou que será biologicamente selecionado no futuro.

Embora pessoas como Gwyneth Paltrow possam discordar, só porque algo é natural não significa que seja bom ou bom pra você. Quando as pessoas usam “natural” dessa maneira, elas provavelmente o fazem porque acreditam, equivocadamente, numa versão fantasiosa do nosso passado (por exemplo, que nossos ancestrais humanos tinha uma relação amorosa e harmoniosa com a “Mãe Natureza” e outros grupos de humanos). Se o que é natural, de fato, é bom, e o que é biológico é “natural”, então, para os pós-modernos, o que é biológico, por consequência, é bom. Por cima, a lógica parece consistente, mas o erro, conhecido como falácia naturalista, é o resultado de um pensamento inacreditável preguiçoso.

É natural, certo?

 

Então, quando pós-modernistas ouvem psicólogos evolutivos dizer, por exemplo, que investigações através das culturas de sociedades baseadas em subsistência indicam que homens que se envolvem em mais ações bélicas tem mais esposas e filhos, eles não estão dizendo que o sequestro de parceiras é uma estratégia que deveríamos ensinar às nossas crianças nem que é uma defesa do patriarcado. Pós-modernistas parecem pensar que uma explicação biológica para o comportamento humano é, de alguma forma, o mesmo que uma receita para construir uma sociedade.

Há uma diferença entre explicar um evento no passado e dizer a outros como se comportar no futuro. Quando um pesquisador diz ter achado um tumor no cérebro de um chimpanzé, ele não está defendendo que se espalhe o câncer. De modo semelhante, quando um psicólogo evolutivo diz “fêmeas engravidam, machos não”, ele não está dizendo que homens deveriam trair suas parceiras. Quando um psicólogo explica que Doença de Tay Sachs é mais comum entre Judeus Ashkenazi, ele não está alegremente celebrando o fato. De modo semelhante, quando um psicólogo evolutivo cita evidências mostrando que mulheres tendem a ser mais seletivas que homens na escolha de parceiros, ele não está dizendo que é inaceitável que mulheres tenham casos frívolos.

Uma estudante numa das minhas aulas, uma vez, levantou a mão e disse “o Movimento Eugenista era pseudociência”. Minha resposta foi “se eugênia era pseudociência, de onde você acha que surgiram tomates suculentos?” Por mais desagradável que seja, a ciência por trás da eugenia é sólida (veja CRISPR cas9, por exemplo). Entretanto, usar essa tecnologia como uma ferramenta cultural para estruturar a sociedade se provou ter consequências horríveis e poderia ter, também,  no futuro (e.g.: fertilização in vitro, diagnóstico genético pré-implantacional, tecnologias que possibilitam filhos de três pais, disponível apenas aos ricos). Mas a ciência que sustenta a eugenia não é má em si mesma. As políticas públicas que guiaram o Movimento Eugenista eram.

Como um microscópio não diz ao pesquisador como se livrar do câncer, evolução não estabelece, em absoluto, nenhuma linha ética que diz o que é certo, o que é errado ou como a vida deve ser vivida. Porque a psicologia evolutiva não postula nenhum código de princípios ou de comportamentos, qualquer crítica de que ela, de alguma forma, justifica sexismo ou racismo é, em si, injustificável. A psicologia evolutiva é o uso do método científico para entender o funcionamento de nossos mecanismos psicológicos evoluídos, para nos ajudar a entender a natureza humana — nada mais.

 

Clarificação de equívoco Número #1: Teoria da Evolução é descritiva, não prescritiva.

Um segunda crítica à psicologia evolutiva é que ela é culpada pelo determinismo genético. Isso está ligado à falácia naturalista. Quando psicólogos evolutivos discutem o papel dos genes em nosso comportamento, não estão dizendo que o ambiente não exerce qualquer influência. Porque pós-modernistas parecem pensar que a psicologia evolutiva ignora o papel do ambiente, logicamente qualquer diferença entre indivíduos é o resultado da ação exclusiva dos genes.

O pensamento pós-modernista segue assim: se há diferenças entre grupos que são causadas exclusivamente por gene, então déficits sociais (incluindo pobreza, delinquência, baixo QI, etc) que esses indivíduos e/ou grupos experimentam, devem ser, portanto, também, o resultado da genética e é, portanto, de alguma forma, justificável.

Obviamente, não é o caso, e nenhum psicólogo ou biólogo evolutivo contemporâneo está dizendo isso. Na verdade, até Charles Murray tem passado boa parte de sua carreira tentando explicar a quase ubíqua confusão que muitas pessoas fazem sobre seu trabalho.

Resumindo, a acusação feita por pós-modernistas de determinismo procederia se psicólogos evolutivos estivessem, de fato, dizendo que genes determinam exclusivamente o comportamento — mas eles não estão. Psicólogos evolutivos já percorreram grandes distâncias para mostrar que tanto genes quanto pressões ambientais conduziram nossa evolução.

 

Clarificação de equívoco Número #2: Psicologia Evolutiva suporta a ideia de que tanto a genética quanto o ambiente ajudaram a moldar nossa evolução. Evolução não é apenas mutação aleatória — é mutação aleatória mais seleção natural. De certa forma, é “epigenética”.

Imagem do livro Cultural Psychology de Steven J. Heine.

 

Num artigo recente que publiquei na Aero Magazine, discuti várias evidências apontando que, tanto ecologia quanto a cultura, são fatores de mediação da nossa evolução. Mesmo sendo claro ao discutir o tópico, muitos dos que leram o artigo nem mesmo viram que mencionei ambas.

Para reiterar o ponto, se nossos ancestrais evoluíssem em ecologias mais generosas, alguém poderia predizer que as normas de gênero seriam mais igualitárias. Justaposto a isso, em ecologias mais perigosas, com predadores grandes e climas hostis, alguém poderia prever que haveria normas de gênero “mais tradicionais”. Com a exceção da variável religião (onde há menos igualitarismo em regiões islâmicas do que nas cristãs), evidências coletadas em várias culturas suporta confiavelmente essa teoria em várias ecologias e vários sistemas políticos.

Por exemplo, se nossos ancestrais migraram da África para a ilha de Truk, no Pacífico Sul, homens tinham que ir em perigosas expedições de pesca em grandes profundidades para conseguir comida para suas famílias. Consequentemente, até hoje, masculinidade, num sentido tradicional, é altamente valorizado entre os entre os residentes da ilha. Contrário a isso, se nossos ancestrais navegaram até o Taiti, onde continuaram a evoluir, homens provavelmente não caçavam. A ecologia lá não apresentava tal oportunidade da mesma forma que para os homens da ilha de Truk. Ao invés disso, tanto homens e mulheres Taitianos podiam pescar em lagoas rasas e prover comida para suas famílias. Como pode-se prever, taitianos não valorizam a masculinidade da mesma forma que os moradores da ilha de Truk e tem e tinha visões mais igualitárias de gênero.

O problema que pós-modernistas têm quando ouvem um psicólogo evolutivo dizendo que genética está conectada aos nossos traços psicológicos é que parecem imediatamente assumir que, o que está sendo dito, por psicólogos evolutivos, é que o ambiente não tem qualquer papel. Esses pós-modernistas ultrajados podem ficar “trigados” [“triggered”], mas não há razão legítima para se sentirem assim já que seu incômodo é baseado em desinformação.

O fato permanece: a psicologia evolutiva é repleta de evidências citando fatores ambientais que têm forte papel na evolução. Não precisaria ser dito (mas ainda o é) que essa é uma completa contradição às acusações imposta à psicologia evolutiva.

Relacionado aos determinismo genético está o conceito de fatalismo. Críticos da psicologia evolutiva dirão que qualquer conhecimento dos mecanismos evolutivos justificam preconceitos e agressões. De novo, acham que, porque algo evoluiu, deve ser também bom. O que não é necessariamente verdade. De modo similar, pós-modernistas equivocadamente acham que, porque algo evoluiu, não irá ou não poderá mudar no futuro.

O livro “Uma História Natural do Estupro”, de Thornhill e Palmer, infelizmente alcançaram os status de símbolo icônico da psicologia evolutiva e se viu nas alças de mira de muitos pensadores pós-modernistas.

Ainda estamos evoluindo e só porque algo como o estupro pode ter funcionado no passado para alguns indivíduos e grupos não significa que funcionará ou deve funcionar no futuro. Pós-modernistas parecem pensar que uma explicação genética para o comportamento é o mesmo que dizer que esse comportamento é resistente à mudança e, portanto, o conhecimento sobre ele pode ser danoso. Para eles, já que explicações biológicos são equivalentes à ser irremediável, qualquer tentativa de reduzir a incidência de estupros seria, em última instância, fútil. A conclusão deles é: já que a psicologia evolutiva cita fatores biológicos para o estupro, ela justifica sexismo e assédio. Mas já que psicologia evolutiva cita, de fato, componentes culturais e ambientais, a crítica é infundada.

Considere o seguinte exemplo: homens são mais propensos a interpretar errado um sorriso do que mulheres, como um sinal de disponibilidade sexual. Quando uma mulher sorri para um homem, ele provavelmente (mais do que uma mulher quando um homem sorri para ela) pensará que há uma oportunidade para acasalamento. Esse é provavelmente um mecanismo evolutivo relacionado ao tamanho e número de gametas entre os sexos (sim, todos os dois). Conhecimento desse viés sexual superseletivo pode ajudar a sociedade. Por exemplo, homens educados com esse conhecimento podem reduzir o número de vezes que incorretamente agem baseados por suas percepções equivocadas e, assim, reduzir o número de investidas indesejadas em mulheres.

Conhecimento sobre nossa psicologia ancestral pode nos ajudar a reduzir o número de casos de estresse e aumentar nossa longevidade. Nosso sistema nervoso simpático evoluiu como um mecanismo de resposta do tipo fuga-ou-luta à estressores no ambiente. Humanos ancestrais liberavam o hormônio do estresse, cortisol, na corrente sangüínea  quando atacados por, digamos, um tigre pré-histórico. Após o evento, níveis de cortisol voltariam ao normal. Modernidade não dá aos humanos tempo o suficiente para que os níveis de cortisol voltem ao normal, como nossos ancestrais. Evoluímos para lidar com um estressor e curtir os frutos do desaparecimento do estressor. Hoje, estamos ocupados demais com o rush, trânsito, reuniões de negócios e cônjuges furiosos para ter a chance para que o sistema nervoso parassimpático retornar o corpo aos níveis homeostáticos. Saber que nossos corpos não são diferentes dos nossos ancestrais, mas que nosso ambiente dramaticamente é, pode nos ajudar a navegar pela vida de uma forma mais saudável.

 

Clarificação de equívoco Número #3: conhecer os mecanismos da nossa psicologia, selecionados pela evolução, pode nos dar a capacidade de impactar positivamente a vida das pessoas.

Outro equívoco sobre a psicologia evolutiva parece ser a inabilidade evoluída dos humanos de compreender vastas porções de tempo. Porque a psicologia evolutiva discute humanos na natureza em termos de eventos que aconteceram num passado distante, críticos, por vezes, afirmam que nenhuma das hipóteses podem ser apropriadamente testadas. Por mais verdade que obviamente seja (nós não podemos voltar no tempo), o que não é verdade é que não podemos saber como algo que aconteceu no passado pode nos impactar hoje. Se algo é desprezado simplesmente porque aconteceu no passado e não pode ser diretamente testado (como segue a crítica pós-modernista), enquanto, o sistema de justiça, tanto quanto nosso entendimento de dinossauros, precisa ser jogado fora — afinal, você não pode voltar no tempo e testar sua hipótese. Claramente, nós bem sabemos que conclusões podem ser traçadas pelo exame de várias evidências em múltiplas disciplinas (incluindo, mas não limitada a, física, química, genética e astronomia).

Por razões supracitadas e no meu artigo anterior, o pós-modernismo parece obstinado em obscurecer ou ignorar o papel da biologia porque vê qualquer talento inato como uma ameaça à igualdade. Mas já que biologia é o resultado de processos físicos e químicos que começaram bilhões de anos atrás e está intimamente conectado com toda vida, a boa teoria da natureza humana tem q ser levada em consideração. Quando pós-modernistas repousam sua teoria na ideia de que cultura é essencialmente nada mais que um fantasma inserido na máquina, eles ignoram que a psicologia evolutiva moderna é a consiliência entre fatores proximais (teoria da influência social) e os fatores distais (física, química e biologia).

A invasão espanhola nas Américas.

 

Por exemplo, Pizarro e seus homens, como Jared Diamond já discutiu, derrotaram o Império Inca por causa de recursos proximais que os incas não tinham: armas, espadas de metal e cavalos. Pós-modernistas adoram assumir o mito do Nobre Selvagem e inferem que o motivo dos incas não matarem os espanhóis era porque era mais pacíficos e sintonizados com a Mãe Natureza — nonsense! Os incas eram tão beligerantes quanto qualquer outra civilização (até mais). O motivo pelo qual os espanhóis invadiram as Américas, e não o contrário, foi por causa de fatores distais. Os ancestrais dos espanhóis evoluíram numa parte do mundo em que a ecologia (a presença de trigo, cevada e animais domesticados) providenciaram as bases evolutivas para o eventual surgimento de armas, germes e aço — os Incas não tiveram nada disso.

As origens de nossas desigualdades não vêm de diferenças nas presentes ideologias, mas sim das variações nas ecologias de nossos ancestrais.

 

Clarificação de equívoco Número #4: uma discussão sobre fatores distais não é o mesmo que negar os fatores proximais. Nosso entendimento das adaptações psicológicas não precisam contradizer a enormidade das escalas de tempo cosmológicas.

Leve para casa a seguinte mensagem: se quer-se ter uma estrutura teórica que amenize o sofrimento humano, onde uma porção substancial de dados (como os da biologia) é deliberadamente ofuscada, a teoria irá sumir em comparação a uma que leva em consideração mais ou a maior parte dos dados. Em nossa empreitada de diminuir o sofrimento, nós devemos também ser intelectualmente honestos: nossa anatomia é uma conquista dos nosso passado ancestral e nos dá pistas da natureza humana, e, muito possivelmente, nossa habilidade de superar ódios étnicos e ideológicos. Entretanto, se escolhermos ignorar o papel da biologia em nossa humanidade, necessariamente falharemos em encontrar soluções para os problemas sociais.

As adaptações de nossos ancestrais garantiram nossa sobrevivência até aqui. Dizer isso não significa que adaptações devem continuar ou que elas funcionarão no futuro. Visões culturais podem e de fato mudam, e quando mudam, um conjunto diferente de pressões seletivas estarão presentes no ambiente. Mesmo que os genes a tenham construído, o cavalo cultural é quem está puxando a carroça genética.

 

 

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  • Marcelo Ronconi Lemes

    Olá,

    Por favor, alguém do site poderia me ajudar em algumas questões?
    1- Quando no texto o autor repete por várias vezes o “pós-modernismo”, os “pós-modernos”, exatamente a quem e a que tipo de corrente, movimento, ele está se referindo? Já vi explicações sobre o que se trata o “pós-modernismo” mas nunca de modo pleno, convincente. Por favor, poderiam me ajudar?
    2- Logo no primeiro parágrafo o autor menciona Kant como um exemplo de “pós-moderno”. Isso está correto?
    3- O “politicamente correto” não estaria animando tais grupos contrários à Psicologia Evolutiva?
    Obrigado.