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O que a ciência tem a dizer sobre a identidade de gênero

Artigo original por Gregory Hickok

Tradução Igo Araujo


Fonte: Google Imagens

 

Alguns dias atrás, o presidente Trump anunciou que indivíduos transgêneros não teriam permissão para servir no exército americano. Isso após o presidente reverter a decisão de Obama, sobre como como escolas públicas deveriam lidar o uso de banheiros por alunos transgêneros.

Em discussões sobre o assunto, uma distinção é frequentemente feita entre “sexo biológico” e um estado psicológico de “identidade de gênero”, o último sendo considerado menos importante, menos biológico ou menos real. O comentarista político Ben Shapiro, por exemplo, ilustra essa posição ao responder a pergunta de uma ativista pelos direitos dos transgêneros:

“Não vou modificar biologia básica, porque isso ameaça a forma subjetiva como você enxerga a você mesmo” 

Esse tipo de afirmação pressupõe que Ben Shapiro entenda algo de biologia básica, o que, tenho certeza, ele não entende, já que biólogos ainda estão trabalhando na questão.

O que nós sabemos sobre biologia básica é que o modelo clássico de diferenciação sexual está provavelmente errado.

Há um entendimento clássico da biologia do sexo: a expressão genética X e Y levam à determinação de gônadas femininas  e masculinas (ovários e testículos), as quais, secretam hormônios que levam a um grande leque de diferenciações sexuais entre homens e mulheres, de genitais externos, forma e tamanho do corpo, até o comportamento. Pesquisas recentes, entretanto, demonstraram uma biologia mais complexa em que, diferenças sexuais não gonadais, inclusive no cérebro e nos comportamentos controlados por ele, resultam da expressão genética diretamente nesses tecidos não gonadais. Muito das evidências dessa nova perspectiva vem de um grande número de estudos, demonstrando que a manipulação de níveis hormonais não respondem completamente pela diferenciação sexual não gonadal, mesmo quando se trata de comportamento. Um exemplo: mandarins machos (Taeniopygia guttata) castrados desenvolvem padrões de cantos normais de machos, enquanto mandarins fêmeas modificadas com hormônios, que desenvolvem testículos como resultado da manipulação, mantém seus padrões normais de canto femininos.

Mandarim (Taeniopygia guttata)

 

Se for o caso, como a ciência indica, da biologia operar em caminhos paralelos para determinar e diferenciar fenótipos de machos e fêmeas, então, é biologicamente plausível que variações genéticas poderiam levar a indivíduos com diferenciações sexuais misturadas, ou seja, com as gônadas de um sexo e o cérebro que tende ao outro. Uma teoria é que indivíduos transgêneros são a realização fenotípica desses estados biológicos.

Colocando de maneira que políticos e comentaristas possam entender, isso significa que sua subjetividade sobre quem ou o que você é decorre da biologia básica, mesmo que entre em desacordo com suas gônadas. E, se isso é verdade, o indivíduo com quem Shapiro se exasperou, poderia ter respondido “eu não vou modificar a biologia básica porque ameaça a forma subjetiva como você me enxerga.”

Para ser claro, a ciência ainda não tem uma resposta definitiva sobre a biologia das identidades de gênero. O biologia subjacente é complexa e particularmente difícil de estudar em humanos. Mas, ao mesmo tempo, é bem claro que, se juristas, advogados e presidentes irão entrar em debates sobre biologia, então a ciência biológica de ponta deve ser parte da discussão.

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