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O que 46 anos de dados sobre sequestro nos diz sobre Terrorismo Religioso


Artigo original por Derek Beres

Tradução Igo Araujo


 

Um soldado indiano corre para a cobertura em Mumbai, que foi abalada por múltiplos ataques terroristas coordenados que mataram e feriram centenas em tiroteios e explosões ao redor da cidade. Fonte: Big Think

 

No último episódio de Common Sense, Dan Carlin considera o que está sendo perdido na atual era do terrorismo. Ele postula a ideia de que a América estaria muito diferente, caso os atentados de 11 de setembro nunca tivessem ocorrido — o terror como a principal causa da fissura entre Direita e Esquerda. A palavra “terror” nem precisa ser mencionada para que seja sentida, à espreita, tamanho é o nosso desconforto.

Isso porque, segundo Carlin, terroristas tiram vantagem de da nossa “reação humana”, que é, a saber, segurança a qualquer custo. O pagamento por essa segurança, real ou imaginária, é enorme:

 

Estar assustado desliga nossos filtros naturais. Você não pensa mais no que está sacrificando por essa segurança extra.

 

O que faz o terrorismo “tão particularmente desprezível”, continua, “é que ele assalta a inocência”. Num dos melhores debates que já ouvi a esse respeito, Fareed Zakaria esteve recentemente no podcast de Sam Harris. Os dois já discordam sobre terrorismo islâmico há algum tempo. Zakaria relembrou Harris de que a maioria das vítimas são muçulmanas e, Carlin também destaca, muitas delas, crianças.

Um jovem vê os tributos em frente à entrada principal da sala de concertos de Bataclan em Paris, França. Fonte: Big Think

 

Carlin acredita que há duas saídas para essa confusão. A primeira, normalizar o terrorismo e nos ajustar, o que ele considera a mais segura. A pior rota — a que estamos testemunhando regularmente — é permitir que terroristas transformem a sociedade de maneira a forçar os cidadãos a agir de forma que nunca agiriam caso o terrorismo não existisse. Isso significa, por exemplo, a maneira como tratamos uns aos outros.

Apesar da discussão entre Zakaria e Harris ter se tornado acalorada (mas nunca desrespeitosa), eles concordam que uma resolução pacífica é a meta — uma muito ambiciosa, mas é a que pode nos salvar. Zakaria cresceu como muçulmano na ìndia, onde, ele diz, é predominantemente secular. Embora seja ateu, ele pede que não façamos generalizações sobre os muçulmanos, nem lhes negue sua fé. Citar escrituras ancestrais, como se todos os muçulmanos as seguissem ao pé da letra hoje em dia, é a principal crítica de Zarkaria à Harris.

Mesmo assim, uma nova pesquisa mostra que o terrorismo religioso está crescendo, e parece que irá aumentar antes de vermos uma queda nesses atos horríveis. Enquanto o terrorismo nos anos 60 era predominantemente secular, escreve Bruce Newsome, os anos 90 deu a luz a um novo tipo de terrorismo religioso, uma onda que levou ao aumento do que ele chama “novíssimo terrorismo”.

Newsome faz a distinção, em parte, pelo modo como os terroristas de hoje atacam rapidamente, ao invés de eventos prolongados como sequestros ou situações com reféns:

 

Enquanto os “novos terroristas” priorizam letalidade espetacular em planos complexos de hijacking [capturar veículos como aviões ou caminhões] ou explosões em lugares cheios de pessoas, prédios de escritórios ou hotéis, os “novíssimos terroristas” encorajam mais frequentes atos de violência, sequestro e situações com reféns. Eles buscam matar das formas mais horríveis possíveis.

 

Isso significa entrar numa boate e abrir fogo contra os ocupantes, jogar uma van numa calçada movimentada e esfaquear transeuntes. Ataques menores e mais frequentes estão ofuscando eventos tipo o 11 de setembro, nos mantendo em alerta constante, sempre com medo de um atentado a bomba ou de um motorista suspeito logo ali na esquina.

Embora Zakaria esteja certo que muitos muçulmanos não endossam tais atos hediondos, Newsome nota que a religião é o catalisador. É comum ouvir que esses ataques não “expressam a religião verdadeira”, um erro que Harris e outros frequentemente apontam. Newsome escreve que terroristas religiosos são mais violentos e mortais do que suas contrapartes seculares, e que deveríamos responsabilizá-los por suas crenças explícitas.

Por exemplo, Newsome passou por 46 anos de dados para concluir que terroristas seculares libertam 51% de seus reféns, contra 31% dos religiosos. O dobro de pessoas morreu na mão de terroristas religiosos; eles matam mais pessoas empregando menos terroristas por evento. Já que terroristas religiosos estão mais dispostos a morrer ou se matarem no processo, maximizar o número de mortes e destruição é uma meta declarada e enaltecida.

E, claro, terroristas religiosos são experts em mídias sociais, perfeitos publicitários, tanto online quanto offline:

 

Descobrimos que os “novíssimos terroristas” escolhem mais alvos públicos, como teatros, e shoppings, teoricamente, em busca de um número maior de mortes e terror. Antigos terroristas escolhiam alvos politicamente úteis e simbólicos, como prédios governamentais ou quartéis militares.

 

Newsome prevê que o terrorismo irá piorar nos próximos anos. Extremismo religioso combinado com acesso a armas e comunicação fácil são os culpados. Pode demorar até que vejamos o próximo “11 de setembro” (se é que veremos), mas o crescimento no número de ataques pequenos parece iminente. Como lidaremos com o fato — normalizando-os, cometendo atrocidades em nome da segurança; espalhando uma educação secular — será o nosso grande desafio nos anos que estão por vir.

 

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