INÍCIO / Ativismo / O Individualismo está se espalhando, e isso não é bom

O Individualismo está se espalhando, e isso não é bom

Artigo original por Derek Beres

Tradução Igo Araujo


Fonte: Big Think

 

O economista Enrico Moretti acredita que o melhor indicador de renda não é sua profissão, mas se você vive numa região com alto número de pessoas com ensino superior completo. Cinco estados do oeste americano, incluindo Colorado e Montana, tem o mais baixo nível de desemprego nos EUA, escreve Richard Manning, na última edição da Harper’s.

Manning especula que a combinação de uma alta concentração de formados e carga salarial mais baixa em indústrias de vanguarda criam uma potente força contra pobreza e desemprego.

Em seu artigo, “Alpinistas Políticos”, Manning discute a mentalidade coletiva do estados do oeste em relação a problemas ambientais. Nos últimos anos, as preocupações com o meio-ambiente afetaram as eleições no Colorado, Utah e Montana. Candidatos que se concentraram em políticas identitárias perderam, enquanto aqueles que falaram de aquecimento global e preservação do solo prevaleceram. E, quando eleitos, políticos que ameaçaram vender terras públicas para a iniciativa privada — por exemplo, Jason Chaffetz e Ryan Zinke – , resultou em uma reação dura e imediata.

Ações coletivas são importantes motivadores políticos e sociais. Em Los Angeles, onde vivo, o inverso ocorre: pessoas prestam pouca atenção à problemas ambientais, como conservação da água, porque não vivemos próximos aos rios Colorado ou Sierra Nevada, nem precisamos lidar com secas extremas, que fazendeiros mais para dentro do continente enfrentam. Só perdemos a cabeça quando o preço do abacate dispara.

Infelizmente, humanos só tendem a notar o que é imediato, o que faz sentido numa tribo na savana, mas causa problemas substanciais em nações legisladas por um único governo. Promove um incentivo ao individualismo no qual as preocupações de alguns se tornam mais importantes que o bem-estar de muitos. Se torna a “América”. E a “América” está se espalhando.

De forma mais geral, os valores ocidentais do individualismo estão se espalhando, de acordo com uma nova pesquisa publicada na revista Psychological Science. Examinando 51 anos de dados, sobre 78 países, coletados pela World Values Survey, os autores Igor Grossman e Michael E.W. Varnum descobriram que não são apenas as culturas ocidentais que estão ficando mais individualistas. O Science Daily diz:

Em geral, culturas individualistas, tendem a perceber as pessoas como auto-direcionadas e autônomas, e tendem a priorizar independência e singularidade como valores culturais. Culturas coletivistas, por outro lado, tendem a ver pessoas conectadas umas às outras e inseridas num contexto social mais amplo — e, assim, tendem a valorizar interdependência, relações familiares e conformidade social.

De acordo com os autores, Camarões, Malawi, Malásia e  a República do Mali mostraram queda substância em práticas individualistas, enquanto outros cinco — Armênia, China, Croácia, Ucrânia e Uruguai — mostraram queda substancial em valores individualistas. Em ambos os casos, o número predominante de países estudados mostraram crescimento expressivo nos dois campos. O indivíduo se tornou mais importante que o grupo.

O mais forte indicador de crescimento do individualismo é o crescimento socioeconômico. Isso faz sentido, quanto melhores estão os indivíduos e suas famílias, mais eles exibem preocupação em permanecer dessa maneira. Essa é a base do crescimento econômico — os números precisam sempre subir para manter a posição social, criando o forte senso de competição do qual o livre mercado depende.

Mas o que um indivíduo ganha em riqueza pessoal, a sociedade perde em poder coletivo. Nem é preciso mencionar o poder concentrado da riqueza corporativa nos EUA. Com um foco crescente em robôs e inteligência artificial tomando o mercado de varejo, da mesma maneira que a automação mudou a manufatura, no longo prazo, o cenário do mercado de trabalho sofrerá uma mudança dramática nos próximos anos.

O que, Manning diz, não tem que ser um problema, se a mentalidade coletiva acompanhar os novos tempos. Apesar de nosso atual presidente estar estranhamente obcecado com mineiros, Manning escreve que as estatísticas atuais estão causando um impacto maior do que a retórica emocional.

A popularidade da energia limpa está subindo, enquanto as pessoas estão fazendo dinheiro com ela. Duas vezes mais americanos estão empregados em usinas solares do que em usinas de carvão, e aquela está criando postos de trabalho numa taxa 12 vezes maior que o restante da economia. Esse é o impulso que teremos para nos empurrar adiante.

Mas isso requer uma inversão da tendência que Grossman e Varnum aludem em seu relatório. Essa tendência no poder não é diferente do que ocorre no problema de saúde recente. Claro, a situação não é ideal para ninguém — eu sobrevivi a um câncer e um dos que saiu perdendo na atual conjuntura do mercado de saúde — mas a abordagem é fornecer cobertura a todos, não apenas aos mais bem sucedidos no topo. Não é uma abordagem individualista, mas uma tentativa de solução coletiva.

O principal problema é a perpétua capitalização de qualquer mercado. Outros fatores importantes ajudam a determinar quais nações estão se tornando mais individualistas; como escrevem os autores, essa tendência “cresce, particularmente, entre cargos executivos e administrativos, entre os com maiores níveis de escolaridades e maiores índices de renda”. Como os EUA estão mostrando, a criação de duas classes — os extremamente ricos e o resto — também alimenta a competição entre os pobres e a classe média, o que, no longo prazo, não ajuda ninguém.

Um exemplo disso é apresentado pelo criador do Dilbert, Scott Adams, que, numa conversa com Sam Harris, falou sobre sua decisão de esperar para instalar painéis solares em sua casa. Quando lhe foi dito que o investimento nos painéis se pagaria em 12 anos, Adams se lembrou de seu treinamento como economista: se ele esperasse 3 anos, pensou, os painéis se pagariam num prazo de tempo menor.

Essa é a visão apropriada para o mercado. Mas é uma decisão ruim quando se trata da saúde do planeta e, por extensão, da saúde daqueles que não podem pensar muito em termos de mercado. Esses três anos a mais de combustível fóssil maximiza os ganhos para o indivíduo e há, certamente, ganhos psicológicos e financeiros no curto prazo com essa mentalidade. O que se perde num mundo que ambiciona o individualismo é a sede coletiva e a implementação de equidade. Sem isso, a voz do coletivo não importará muito, pois o indivíduo já terá partido.

Avalie esse artigo

0

Nota total

Agradecemos a sua avaliação!

User Rating: 2.13 ( 2 votes)

Sobre GEDbioética

O Grupo de Estudos e Discussões em Bioética – GEDbioética, foi fundado em 2012, por um grupo de alunos do curso de Ciências Biológicas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, campus de São José do Rio Preto, com objetivo difundir e debater temas relacionados à bioética. Nossa missão é construir um ambiente permissivo à pluralidade de ideias. Além disso, criar um vínculo com a comunidade, a qual é essencial para a construção do conhecimento.

VEJA TAMBÉM

Kevin Spacey, protagonista de House of Cards, é demitido da série da Netflix.

Netflix, Santander e TV Globo: o boicote dos empresários

Netflix demitindo Kevin Spacey, protagonista da famosa série House of Cards; Banco Santander cancelando a …