INÍCIO / Ciência / Novo surto de sarampo e varicela nos EUA, ambos ligados à recusa da vacinação

Novo surto de sarampo e varicela nos EUA, ambos ligados à recusa da vacinação


Artigo original por  Phil Plait

Tradução Mariana Santos Sanfelice


Ilustração do vírus varicela-zoster, causador da catapora. Crédito: Shutterstock / Tatiana Shepeleva

Sarampo e catapora são doenças perigosas e ambas podem ser prevenidas. No entanto, mesmo assim há, neste momento, um surto de sarampo em Minnesota e um de catapora na Califórnia.

Normalmente, as razões por trás de um surto são difíceis de se localizar, mas nestes casos, há uma razão muito simples: pais recusando-se a vacinar seus filhos.

Na Califórnia, o surto de catapora é em Agoura Hills, uma pequena cidade aos arredores de Los Angeles. Três crianças de diferentes idades contraíram, e todas elas são da mesma escola: a Mariposa School of Global Education (Escola Mariposa de Educação Global). Por isso, foi dito aos alunos que não foram vacinados contra a varicela (o vírus que causa a catapora) para ficarem em casa durante três semanas.

O que eu achei surpreendente sobre esse fato é o seguinte: de 400 alunos na escola, quase 100 não foram vacinados. Isso gera uma taxa de vacinação de 75%, que é miseravelmente baixa (normalmente, é necessário taxas acima de 90% para a imunidade de grupo fazer efeito). No artigo localizado no link acima, um dos pais de uma criança não vacinada diz: “Eu pessoalmente não acredito que as vacinas funcionem. Acho que elas são mais perigosas do que qualquer outra coisa. Não sinto que somos uma ameaça para a escola.”

O problema é que o vírus não se importa com o que se pensa ou se sente. Ele vai infectá-lo de qualquer maneira. E essa última frase é absolutamente arrepiante. As doenças que uma criança não vacinada pode carregar não são uma ameaça apenas para ela, mas uma grande ameaça para as outras crianças da escola, especialmente em uma que está tendo um surto. Vou apontar que um dos três alunos que ficou doente foi vacinado; a taxa de infecção entre pessoas vacinadas é bem menor do que as das não vacinadas (e os sintomas geralmente muito menos graves), mas não é zero.

Curioso, eu procurei mais informações sobre a escola e não fiquei surpreso ao descobrir que ela usa o método Waldorf de ensino. Enquanto é discutido se essa pedagogia é realmente melhor ou pior do que as outras usadas na maioria das escolas públicas, o que é certo é que a taxa de vacinação entre os alunos de escolas Waldorf tende a ser menor. Eles não têm uma política oficial anti-vacinação, mas têm uma forte inclinação para esse lado.

Vou mencionar aqui que eu sou um pai e, sabendo o que sei agora, eu nunca deixaria meu filho frequentar uma escola Waldorf. Mesmo que ela esteja completamente vacinada, nenhuma vacina é 100% eficaz, e o risco de contrair uma doença perigosa é muito grande… como os pais com filhos em Mariposa estão descobrindo (embora, levando em conta a citação do pai no artigo, talvez alguns deles não irão descobrir isso).

O surto de sarampo em Minnesota é similar, isso ocorre devido aos pais que não vacinam as crianças, mas neste caso o cerne do motivo por de trás disso está claro: a anti-vacinação. Nesse caso, de acordo com um artigo do Washington Post (um artigo que você realmente deveria ler), grupos de anti-vacinação fomentam o medo da vacinação, enfatizando a ideia longa e sem crédito que elas são ligadas ao autismo.

Sejamos claros: elas não são. Não há qualquer conexão entre o autismo e a vacinação, e isso definitivamente tem sido mostrado. As vacinas são seguras e eficazes, e de longe uma escolha melhor do que as doenças que elas previnem.

Enquanto eu lia o artigo do Washington Post, não fui surpreendido ao ver o nome de Andrew Wakefield aparecer. Ele é o pai do movimento moderno de anti-vacinação; e foi seu trabalho fraudulento que levou ao medo do autismo causado pela vacina de sarampo/caxumba/rubéola (MMR ou tríplice viral). A amplitude e a profundidade de seus erros são impressionantes; ele foi pego agindo “de forma desonesta e irresponsável” pelo Conselho Médico do Reino Unido, quando fazia sua pesquisa com as vacinas, ele pode ter falsificado os resultados e na época estava desenvolvendo sua própria alternativa para a vacina tríplice viral — um enorme conflito de interesses, já que enfatizando os medos da MMR, poderia gerar milhões de dólares para vacina alternativa de Wakefield.

Então, ler que Wakefield realmente viajou até a área de Minnesota antes do surto para falar com os pais sobre vacinas e autismo, não foi nenhum choque para mim. Também não foi nenhuma surpresa que, quando questionado sobre ele ter alguma culpa pelos surtos, ele respondeu “Não me sinto nem um pouco responsável.”

É claro que ele não se sente. Ele nunca admitiu qualquer responsabilidade pelas consequências de seus atos e, na verdade, tentou culpar os outros, ao invés de si mesmo. Ele pode não “se sentir responsável” mas, de novo, os vírus não se importam com seus sentimentos.

E por detrás de tudo isso que está acontecendo, está a anti-vacinação sustentada pelo próprio presidente Trump, que procurou tanto Wakefield quanto o reconhecido advogado da anti-vacinação Robert F. Kennedy Jr (que promove equívocos perigosos; escrevi sobre ele e averiguei aqui também). Não está claro o que Trump está fazendo nesta frente, mas dado suas fervorosas tendências à anti-ciência, eu não consigo imaginar que será qualquer coisa boa.

E não consigo imaginar que será algo bom para as crianças dos Estados Unidos. A história tem nos mostrado isso bem claramente.

Durante minha vida inteira, sempre me vacinei contra doenças que são preveníveis, e eu e minha esposa certificamo-nos que nossa filha também tomasse todas suas vacinas (incluindo a Gardasil). Eu realmente desejo que se alguém esteja questionando-se sobre esse problema, depois de ler o que eu escrevi, vá para um médico credenciado e pergunte-lhe sobre a vacinação. Dê ouvidos à anti-vacina, se for necessário, mas quando o fizer, mantenha Minnesota, Califórnia e todos os outros surtos já causados e se pergunte se vale a pena.

Na minha opinião: não chega nem perto.

Avalie esse artigo

0

Nota total

Agradecemos a sua avaliação!

User Rating: 4.54 ( 5 votes)

Sobre GEDbioética

O Grupo de Estudos e Discussões em Bioética – GEDbioética, foi fundado em 2012, por um grupo de alunos do curso de Ciências Biológicas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, campus de São José do Rio Preto, com objetivo difundir e debater temas relacionados à bioética. Nossa missão é construir um ambiente permissivo à pluralidade de ideias. Além disso, criar um vínculo com a comunidade, a qual é essencial para a construção do conhecimento.

VEJA TAMBÉM

Nós precisamos acreditar que temos livre arbítrio?

Artigo original por Scotty Hendricks Tradução Igo Araujo   Em algum momento da sua vida, você …