INÍCIO / Ciência / Nós precisamos acreditar que temos livre arbítrio?

Nós precisamos acreditar que temos livre arbítrio?

Artigo original por Scotty Hendricks

Tradução Igo Araujo


Fonte: Big Think

 

Em algum momento da sua vida, você deve ter se perguntado até onde vai o controle que tem sobre suas ações. Você poderia ter se impedido de comer aquele pão doce a mais? Em outras palavras, você tem livre arbítrio?

Essa é uma pergunta das grandes, e a resposta só levanta mais perguntas. Se somos livres, temos que decidir o que fazer com essa liberdade. Se não somos, temos que viver com isso também. Muito negligenciado, contudo, é o porque precisamos de livre arbítrio ou, pelo menos, a crença de que temos livre arbítrio.

Enquanto muitos supõe que não temos livre arbítrio de nenhum tipo, o mundo funciona partindo do princípio de que temos. Ele nos permite, facilmente, incutir “responsabilidade moral” nas pessoas. É fácil entender como conceitos do tipo “aprovação” ou “culpa” aderem às ações das pessoas se presumimos que elas escolheram agir de tal maneira. Mas, se não temos livre arbítrio, ou supomos não ter, então, podemos realmente aprovar ou culpar?

Alguns neurocientistas, como Joshua Green e Jonanthan Cohen, acreditam que podemos ter responsabilidade moral, mesmo sem livre arbítrio. Eles argumentam que nossos cérebros físicos tem grande efeito sobre nossas ações e que nossa responsabilidade por elas deve ser considerada caso a caso, sem impedir que a assumamos. Outros, como o compatibilista Daniel Dennett, dizem que essas questões não chegam a lugar algum e que não vale a pena fazê-las.

Fonte: Big Think

 

A ideia proposta pelos neurocientistas tem sido testada, ou mais ou menos isso. O  advogado americano Clarence Darrow, uma vez, apresentou um argumento similar em corte, dizendo que dois assassinos confessos não eram moralmente responsáveis por suas ações pois eram “decididamente emocionalmente deficientes”, devido a circunstâncias além de seus controles. Os dois assassinos foram condenados à prisão perpétua ao invés da pena de morte.

Contudo, tentar justificar a um policial que o motivo de você ter ultrapassado o limite de velocidade é uma causalidade determinística, vai terminar numa multa. Legal e moralmente, presumimos que você é livre para fazer outras escolhas em todas instância, mesmo que você, na verdade, não possa.

Mas isso é tudo hipotético. E  que tal exemplos reais do que acontece quando as pessoas agem com a ideia de que lhes falta livre arbítrio? 

O filósofo Daniel Dannett relata a história sobre o que acontece quando você diz às pessoas que elas não têm responsabilidade moral porque não têm livre arbítrio:

Vohs e Schooler, num importante artigo que foi replicado de várias maneiras diferentes, configuraram um experimento com estudantes universitários, a quem foram dados dois textos para ler. Ambos eram do livro A Hipótese Espantosa [The Astonishing Hypothesis], de Francis Crick. Um não era sobre livre arbítrio e o outro era, mas dizia basicamente que era uma ilusão. Todas as decisões que você toma, na verdade, são determinadas por causas que a neurociência está investigando.Você não tem livre arbítrio, é só uma ilusão.

Bem, então temos esses dois grupos. O grupos leram textos de mesma extensão de um mesmo livro. Depois da leitura, lhes foi dado um quebra-cabeças e que ganhariam dinheiro se o resolvessem. O pesquisadores foram espertos o bastante para fazer o quebra-cabeças de modo que havia maneiras de trapacear, que, oops, foram inadvertidamente reveladas aos participantes. E, adivinhe, aqueles que leram o trecho em que Cricks diz que livre arbítrio é uma ilusão trapacearam numa taxa muito maior que os outros. Em outras palavras, apenas a leitura de um texto os deixou menos preocupados com as implicações de seus atos. Eles se tornaram negligentes, ou pior, em suas tomadas de decisões. Acho que esse é um pensamento importante e realista.

Agora, é possível que não tenhamos livre arbítrio e os cientistas acabaram por colocar a maioria das pessoas que estavam predestinadas a não trapacear no grupo controle. Mas é improvável.

A ideia de que não temos livre arbítrio afeta nossas ações, escolhidas livremente ou não. Se a neurociência refutar o livre arbítrio, teremos que inventar outra nobre mentira?

Avalie esse artigo

0

Nota total

Agradecemos a sua avaliação!

User Rating: Be the first one !

Sobre GEDbioética

O Grupo de Estudos e Discussões em Bioética – GEDbioética, foi fundado em 2012, por um grupo de alunos do curso de Ciências Biológicas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, campus de São José do Rio Preto, com objetivo difundir e debater temas relacionados à bioética. Nossa missão é construir um ambiente permissivo à pluralidade de ideias. Além disso, criar um vínculo com a comunidade, a qual é essencial para a construção do conhecimento.

VEJA TAMBÉM

Pela primeira vez, pequenos robôs tratam infecção num organismo vivo

Artigo original Teodora Zareva Tradução Igo Araujo   Cientistas do departamento de nanoengenharia da Universidade da …