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Netflix, Santander e TV Globo: o boicote dos empresários

Kevin Spacey, protagonista de House of Cards, é demitido da série da Netflix.

Netflix demitindo Kevin Spacey, protagonista da famosa série House of Cards; Banco Santander cancelando a mostra Queermuseu; TV Globo tirando William Waack, um de seus maiores âncoras, do ar…

O que esses fatos têm em comum?

Ao menos três coisas.

A primeira coisa que podemos perceber é que, nestes casos, tratam-se de grandes empresas bem conhecidas tomando medidas drásticas, totalmente fora da curva (são decisões simplesmente inéditas). Além disso, podemos perceber que, entre o tempo da explosão da polêmica e a decisão empresarial, temos uma velocidade de resposta incrível, como se as empresas estivessem tentando evitar que a polêmica girasse por muito tempo na internet sem que sua imagem fosse resguardada (pois se é ruim para a empresa estar associada a algo imoral, é bom que, na divulgação da notícia da imoralidade, venha junto a notícia de que a empresa já tomou as medidas cabíveis).

A segunda coisa perceptível é uma tendência à moralização do mercado. Abusos sexuais, tabus sociais e piadas de mau gosto devem ter a associação evitada (o que muitos chamam, quando trata-se de uma política forçada goela abaixo, de politicamente correto).

A terceira coisa que percebo é que, embora a questão da liberdade de expressão seja classicamente associada ao papel do Estado em nos prover tal direito ou censurá-lo, não se trata do Estado dizendo o que pode ou não pode ser dito ou feito. Trata-se do próprio mercado operando, onde empresas apostam nas preferências visíveis dos consumidores, e consumidores apostam em preferir empresas que os agradem. As críticas que possamos fazer a essa série de eventos, nesse sentido, são bem menos poderosas do que poderiam ser caso o censor fosse o Estado. Afinal, tratando-se da iniciativa privada, fica realmente difícil reclamar liberdade de expressão quando a liberdade de associação é um direito tão pétreo quanto.

Essa tendência à moralização do mercado, associada com a imediaticidade das redes sociais (que clama por respostas instantâneas das empresas envolvidas nas polêmicas, ao custo de as empresas terem suas reputações manchadas pela desinformação — tão popular na internet) e justificada pelo direito à livre associação forma e caracteriza o boicote: o veto a quaisquer relações com indivíduo ou grupo a que(m) se queira punir ou constranger a algo.

Em outras palavras, o boicote gerado pelos consumidores, ao perceberem as empresas envolvidas em polêmicas, traz como resposta o boicote, por parte das empresas, aos indivíduos associados a elas, que tenham sido diretamente envolvidos com as polêmicas em questão.

A despeito dos julgamentos morais que podemos fazer (afinal, todo esse drama trata-se justamente disso, de julgamentos morais), o pano de fundo desses eventos são simples relações econômicas, coisa que será papel da economia comportamental analisar.

Entretanto, todavia e porém, há riscos reais envolvidos nessa tendência: se por um lado é positivo que empresas estejam mais afeitas a discutir problemas sociais — a ponto de aplicarem, na prática, seus entendimentos — , por outro a moralidade que vai se formando parece concretizar certos padrões socialmente estáveis, uma nova normatização de regras e preceitos sociais. Quanto mais se desenvolve um modus operandi ético no mercado, mais esse modelo se fomenta e reproduz.

O que sabemos, porém, é que a mesma prática que gerou essa balbúrdia toda é a prática que pode convertê-la a novos rumos: o próprio boicote. E é aí que entra o papel do indivíduo dentro desse jogo complexo de relações: é se posicionando e pressionando (preferencialmente de modo racional e eticamente justificado) as empresas e as pessoas que você terá alguma chance de incliná-las a uma mudança de padrões.

Sim, não significa que você estará certo ao simplesmente ter motivos para pressionar. Significa tão somente que, se algo te parece errado nisso tudo, seu entendimento só terá efeito se você se expressar.

De gritaria e moralismo barato o mundo tá cheio. O que é preciso, caso algo esteja realmente errado no status quo que estamos vivenciando, é que o silêncio dos bons seja combatido.

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Sobre Alysson Augusto

É graduando em Filosofia pela PUCRS, professor de ensino médio e faz vídeos para o Youtube (conheça aqui). Acredita na importância de pensar o mundo eticamente, e por isso vê potencial no GEDbioética.

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