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A guerra da informação e a prisão virtual


Por Lucas Villela Canôas

Quando um pirata ou um corsário invadia um navio, qual era a primeira coisa que eles buscavam? Tesouro, joias ou armas? Na realidade, buscavam o diário de bordo do capitão, pois é onde tinha toda a informação disponível sobre as viagens: portos, perigos, mapas…toda a informação necessária para poder navegar com vantagem.

Hoje os piratas e os corsários, ainda que existam no mundo das águas, navegam também na internet. Corsários (pagos pelo governo), são encarnados pela NSA, GCHQ e quaisquer outras agências de inteligencia, como a Stratfor (privada), que atua junto com o GSI e a Abin.

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Fonte: Google Imagens

A vigilância em massa tem efeitos psicológicos, assim como acontece no livro 1984 (escrito por George Orwell), onde as pessoas passam a limitar o próprio pensamento e também suas atitudes, quando sabem que existe a possibilidade de estarem sob vigilância. O filósofo Jeremy Bentham criou a ideia da penitenciária ideal, chamada panopticon, onde possibilitaria que apenas um vigia cuidasse de milhares de presidiários, pois eles nunca saberiam se estavam a ser observados ou não, portanto ficariam inibidos de ter qualquer conduta subversiva. Nem toda prisão tem muros altos e arames farpados, um mundo sem privacidade é a maior prisão que pode existir.

Em 2011, arquivos vazados pelo Wikileaks, mostram que a Líbia e o Egito, espionaram seus cidadãos com ajuda de empresas estrangeiras, que lhes deram infraestrutura para esta função, como gravar para posterior análise as ligações. Em 2013, Snowden trouxe milhões de arquivos de dentro da NSA, mostrando os métodos de espionagem em massa, em 2015 a empresa italiana Hacking Team, teve seus servidores invadidos e todo o seu trabalho conhecido mundialmente: A empresa vendia softwares de espionagem, que possibilitavam a entrada em dispositivos de terceiros, para a Polícia Federal brasileira, que espionava os ativistas e militantes.

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Fonte: Google Imagens

Já na espionagem entre governos, temos o caso do Irã, que sofreu sanções políticas por enriquecer material radioativo, só sofreu essas penalidades pois os EUA espionaram os representantes dos países e sabiam como iam votar, o que estavam pensando e o que era manobrável. Isso tornou possível a aprovação de sanções econômicas ao inimigo político dos EUA no oriente médio. No caso do Brasil, Snowden revelou que nossas comunicações foram espionadas pelo governo dos EUA, que fez espionagem econômica e industrial, especialmente na Petrobrás (por causa do Pré-sal).

Recentemente, Julian Assange teve sua conexão de internet cortada, sendo que o acesso à rede é considerado um direito humano pela ONU desde 2011. Os EUA pressionaram o governo do Equador, para que tomassem uma atitude, pois Julian estava vazando e-mails de Hillary para desgastar sua imagem, sendo o objetivo final desestabilizar a política interna dos EUA, não favorecer o Trump em si, pois sua imagem já não é bem vista. No livro “Wikileaks – Quando o Google Encontrou o Wikileaks”, Julian mostra como as relações de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, agem em conjunto com o governo dos EUA, tendo inclusive influência diplomática sob outros países, a bandeira dos EUA muitas vezes é representada pela bandeira do Google.

A tecnologia criada no âmbito militar é absorvida e aprimorada para uso comercial, hoje a vigilância é utilizada por empresas de vários ramos, as de marketing utilizam seus dados para gerar propaganda (qualitativa) quando você visita sites. Empresas de saúde te espionam (pegando seus dados e de seus familiares, em hospitais e farmácias) para saber se você tem alguma chance de ficar doente e assim negar a “ajuda” do plano de saúde e as de crédito, olham suas movimentações bancárias ou seu salário no INSS, para assim oferecer empréstimos e cartões de crédito para pessoas com a situação financeira instável.

A tecnologia do Google por exemplo, passou a ser ostensivamente utilizada pela inteligência dos EUA a ponto do setor de inovação de tecnológica do pentágono ter o Eric Schimit no comando, o CEO do grupo Alphabet(Google). As denúncias de Snowden mostraram que o governo tem acesso aos servidores do Google, Yahoo, Microsoft, Facebook e outros serviços Web. Alguns anos atrás, muitas pessoas argumentavam que o grande fluxo de dados nos mantinha anônimo, o que seria verdade caso não tivéssemos BigData e computação de alto desempenho, que permite a mineração de dados de forma muito eficiente, a ponto de existir a possibilidade de saber quem escreve um texto com uma precisão de 80%, analisando o vocabulário e estrutura do texto. Isto foi o que possibilitou que o professor Andrej Holm, na Alemanha, fosse tachado de terrorista e sua casa invadida pela polícia, deixando ele desaparecido por vários dias.

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Fonte: Google Imagens

O que estamos vendo no século XXI, é a fusão do mundo virtual com o mundo real e o sistema de vigilância tem a ver com isso, antigamente o vigilantismo se dava nos correios, com agentes infiltrados, pessoas te seguindo para saber seus costumes, mas hoje nada mais disso é necessário. É possível seguir uma pessoa no centro de uma cidade apenas utilizando câmeras e em determinado momento, mandar viaturas de polícia para pegar o alvo.

A guerra da informação, a disputa para ter mais informações que seu adversário político, militar ou econômico, é a principal marca no mundo dominado pelos computadores e isso foi substancial para a derrota do nazismo! Na época foram fabricadas máquinas de escrever que tinham um engenhoso sistema de criptografia e era necessário ter a máquina que encriptava e decriptava a informação para poder ler o texto, sendo as chaves diferentes de máquina para máquina. O cientista Alan Turing, um criptoanalista e pai da computação moderna, decifrou uma das máquinas dos fascistas, o que permitiu que os Aliados tivessem informações privilegiadas dos planos da Alemanha, sendo esse o começo da derrota de Hitler e é esse tipo de situação que está causando distorções profundas na atualidade, como é o caso do Wikileaks (que teve grande influência no caso da primavera árabe) e do Snowden (que forçou grandes empresas, países e mesmo pessoas a mudarem a forma de tratar os dados sensíveis), o Panama Papers (derrubou líderes por lavagem de dinheiro). Os vazamentos são cada vez maiores e se tornam cada vez mais comuns, o impacto que os vazamentos da empresa Hacking Team, Mossak Fonseca, NSA e os milhões de documentos do Wikileaks, tornam público os bastidores de um jogo que desconhecemos e faz o uso da mesma arma que eles usam contra nós.

Hoje todo o aparato de vigilância do Estado pode ser utilizado para ver todas as suas comunicações, o simples fato de fazer buscas no Google, com conteúdo considerado subversivo é suficiente para te colocar em uma lista de monitoramento, a única arma que temos contra a vigilância é a criptografia, softwares livres e o TOR, que mistura suas conexões e dificulta a identificação da conexão.

Um mundo onde não existe privacidade, não existe liberdade. Transforma-se o mundo em uma grande prisão, onde não sabemos se somos observados ou não.

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Fonte: Google Imagens

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Sobre GEDbioética

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