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CRISPR pode causar inúmeras mutações acidentais no genoma, indica estudo


Artigo original por Teodora Zareva

Tradução Carolina Castro


 

Créditos da foto: Pixabay

 

Caso não tenha ouvido falar da CRISPR-Cas9, é uma ferramenta de engenharia genética revolucionária que foi descoberta há alguns anos. Ela permite que cientistas editem o DNA de qualquer espécie com precisão e eficiência nunca vistas antes. Hoje em dia, centenas de pesquisadores ao redor do mundo fazem experimentos com a CRISPR, na esperança de descobrir a cura para doenças genéticas e, inclusive, projetar bebês. O primeiro teste clínico da CRISPR-Cas9 está em andamento na China, com expectativas de atacar o câncer com células modificadas do sistema imunológico.

O método de edição é baseado no mecanismo de defesa das bactérias contra os vírus. Uma molécula de RNA carrega os seguimentos do DNA de um vírus encontrado com uma enzima (Cas9). Quando a molécula encontra a mesma sequência de DNA, a enzima é ativada e o corta. Pesquisadores descobriram que podem usar este sistema para cortar qualquer sequência de DNA numa localização específica.

Mas não é porque a ferramenta está sendo promovida que está livre de erros. Mutações ocorrem ao redor das áreas em que o DNA é cortado e precisam ser reparadas. Às vezes a CRISPR pode, sem querer, atingir partes indesejadas do genoma. Algoritmos de computador identificam as áreas mais prováveis de acontecer essas mutações e são, mais tarde, examinadas pelos pesquisadores para deleções ou inserções. No entanto, o sequenciamento do genoma inteiro (WGS) — examinando o DNA completo de animais vivos que passaram pela modificação de genes — não foi feito.

Numa pesquisa publicada recentemente no jornal Nature Methods, intitulada “Mutações acidentais após modificação de seres vivos com a CRISPR–Cas9”, cientistas usaram o sequenciamento do genoma inteiro para estudar as mutações ocorridas no DNA de ratos que passaram pela modificação da CRISPR.

A revista Genetic Engineering and Biotechnology News noticiou que “os investigadores conseguiram determinar que a CRISPR corrigiu com sucesso um gene que causa cegueira, mas descobriu que os genomas de dois recipientes da terapia gênica distintos sofreram mais de 1500 mutações de nucleotídeo único e mais de 100 deleções e inserções. Nenhuma dessas mutações no DNA foram previstas pelos programas que identificam as áreas atingidas.

Um co-autor da pesquisa, Vinit Mahajan, Doutor em Medicina e Ph.D., disse:

“Ainda estamos otimistas com a CRISPR, somos médicos, e sabemos que toda terapia nova pode ter alguns efeitos colaterais — mas precisamos ficar atentos a eles.”

Os autores estão encorajando cientistas a usar o método WGS para determinar todas as áreas atingidas nos experimentos com a CRISPR.

Contudo, nos últimos dias, alguns cientistas ficaram preocupados com a validade do estudo e questionaram a metodologia. O Dr. Gaetan Burgio, líder do grupo e chefe da unidade de transgênicos na Universidade Nacional da Austrália, disse num encontro de revisão da revista:

“As afirmações nesta revista são previsíveis, já que a enzima Cas9 pode tanto permanecer nas células por dias, como acabar criando indels (marcadores de inserção/deleção) aleatórios no genoma. Mas os principais problemas, para mim, se encontram na superestimação do efeito das áreas atingidas devido à falta de severidade dos  programas que detectam essas mutações acidentais. Pra resumir, minha opinião é que essas mutações são propensas a existirem antes mesmo da CRISPR.”

Uma coisa é certa – ainda há muito trabalho a se fazer para garantir a segurança da tecnologia CRISPR/Cas9.

Sobre GEDbioética

O Grupo de Estudos e Discussões em Bioética – GEDbioética, foi fundado em 2012, por um grupo de alunos do curso de Ciências Biológicas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, campus de São José do Rio Preto, com objetivo difundir e debater temas relacionados à bioética. Nossa missão é construir um ambiente permissivo à pluralidade de ideias. Além disso, criar um vínculo com a comunidade, a qual é essencial para a construção do conhecimento.

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