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A contribuição do pensamento grego para a formação moral

Por João Cardoso de Castro


Muito pode se falar sobre o certo e o errado, e em nosso dia-a-dia julgamos, consciente ou inconscientemente, pessoas à nossa volta, seus hábitos e comportamentos. Quando se trata de filosofia, por sua vez, questiona-se como deveríamos viver, quais os comportamentos ideais e se existe uma disciplina filosófica que poderíamos chamá-la de prática, esta seria, sem dúvida, a Ética. Toda reflexão que pretende identificar a melhor forma de viver e conviver se articula, necessariamente, com o estudo da moral.

É lugar comum a ideia de que a crise ética que vivemos nos dias de hoje tem sua origem na perda de valores e normas que, de alguma forma, vem à tona no período moderno, com o surgimento de sociedades complexas, com uma pluralidade de crenças, ideologias e comportamentos. O advento da Reforma, por exemplo, (e das inúmeras correntes protestantes oriundas deste processo) cria uma cisão no Cristianismo, que fundamentava-se como principal referência ética desde a Antiguidade. Outros sugerem que esta crise “espiritual”, sem precedentes, que atinge a civilização ocidental, seja fruto da irrefreável produção de bens materiais e simbólicos que, amarrados a uma visão liberal, é capaz de fazer “brotar” em nós uma ambição quase capilar por toda esta parafernália produzida.

Assim, diante de um “relativismo universal e um hedonismo que não conhecem limites” urge uma reflexão ética em contra-partida. Neste sentido, a Ética nos conforta com um horizonte de “valores” que nos indica o caminho “razoável”, como um “dedo que aponta” na direção de um dever-ser propriamente humano, diante desta angústia que só a liberdade é capaz exasperar. Como resultado, um enorme fluxo de trabalhos espraia-se no campo da reflexão moral sendo apropriados por todos os campos da atividade humana.

No caso dos homens e mulheres que cursam a graduação em contabilidade ou administração, é fato que os chamados “códigos de ética profissional” não dão conta da multiplicidade de conflitos que estes futuros profissionais devem enfrentar em seu cotidiano e, diante disso, torna-se premente uma reflexão que possa construir um arcabouço teórico que sustente, não somente a identificação destes conflitos, como a tomada de decisão. Neste sentido, mesmo as teorias morais mais abstratas, como a formulação socrático/platônica, por exemplo, tiveram como ponto de partida um determinado contexto histórico e o conjunto de respostas (reflexões) que podemos identificar no pensamento destes filósofos, embora inseridas em um determinado lugar, tem um caráter atemporal e, portanto, um alcance não-restrito àquele momento histórico. Destarte, qual é a contribuição destes pensadores para o estudo da moral? Como podemos nos apropriar desta contribuição para o debate sobre a formação moral de nossos futuros contadores e administradores?

Acreditamos que grande parte da reflexão sobre a moral, em Sócrates e Platão, se dá em suas investigações sobre a noção de areté (virtude). Segundo a formulação socrático/platônica, a resposta à questão “a virtude pode ser ensinada?” parte de um entendimento da virtude como um saber, melhor dizendo, um conhecimento de si mesmo. A virtude é a retidão de si mesmo que nos faz reconhecer e compartilhar este eixo, virtus, do divino ao humano. Enquanto si mesmo, centrado no ponto de interseção deste eixo com o meio que forma nosso plano de existência, o ser humano “é” e deve “conhecer a si mesmo”. Deste ponto central se irradia virtuosamente como agente ativo dos atos e fatos que vem a participar, afirmando a presença humana, sua humanidade.

Para além destas constatações, não seria exagero afirmar que a dignidade moral, no pensamento grego, está intimamente ligada à capacidade de “manifestar” aquilo que se “é”. Se o hábito (hexis) é capaz de elevar meus talentos à excelência, conforme nos ensinou Aristóteles, é somente através do reconhecimento de meus talentos (virtudes) que posso desenvolvê-los e atualizá-los. Mas como identificá-los? “Conhece-te a ti mesmo”. A expressão, inscrita no pórtico do templo de Apolo, se torna a grande divisa do pensamento socrático na medida em que lança sobre o próprio sujeito a responsabilidade do agir moral. O “bom” cidadão e, consequentemente, a polis “justa” somente se manifestam a partir de exercício intelectual que visa revisitar aquilo que “sou”, ou seja, um reconhecimento da minha vocação na grande sinfonia cósmica.

No pensamento grego, a ordem e o equilíbrio da praxis humana e, portanto, da existência coletiva, dimensão onde tudo acontece, está intimamente relacionada à capacidade humana de apropriar-se das possibilidades que lhe são apresentadas. Este “conhecer-se à si mesmo” é o núcleo de sentido de onde irradia a boa conduta, isto é, o plano fundamental que dá equilíbrio aos entes no seu todo e às difíceis tomadas de decisão. Neste sentido, é assim, pelo lamentável esvaziamento da importância da noção de areté, dons e vocação, ou seja, da “excelência humana”, que todos os entes, sem exceção, mergulham na impossibilidade da comunhão.


Texto originalmente publicado no jornal Diário de Teresópolis

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