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Bullying é um problema de saúde pública?


Artigo original por Derek Beres

Tradução Igo Araujo


 

Fonte: Google Imagens

 

Lisa Feldman Barrett não quer que sua perna seja quebrada. Mas, entre uma tíbia fraturada e atrofia do hipocampo, ela escolheria a primeira sem pensar duas vezes. Uma escolha estúpida no mundo instável das hipóteses, ela diz, mas a verdade é que é mais fácil curar um osso quebrado do que regenerar neurônios mortos.

Barrett sabe bastante a respeito de neurônios. Professora de Psicologia da Universidade do Noroeste (Northeastern University), seu novo livro, How Emotions Are Made: The Secret Life of Your Brain (Como emoções são feitas: A Vida Secreta do Seu Cérebro, em tradução livre), é uma investigação inovadora de como nosso cérebro cria emoções. Planejo abordar esse processo num artigo futuro, mas o timing da teoria de Barrett sobre dano neural e justiça não pode ser ignorado. Em resumo, ao invés de animais reativos num mundo de estímulos constantes, Barrett acredita, suportada por bastante evidência, que humanos são criadores de experiências cognitivas e emocionais. Emoções não acontecem com você, você as cria.

No livro, ela aborda a maneira como o governo lida com o conceito de dano:

 

A lei protege a integridade do seu corpo anatômico, mas não a integridade da sua mente, mesmo que seu corpo seja o recipiente do órgão que faz de você o que você é: seu cérebro. Dano emocional não é considerado real a menos que seja acompanhado de um dano físico.

 

Se ela quebrasse minha perna, Barrett continua, ela seria responsabilizada por isso. Mas e se ela me xingasse? Ou partisse para a “brutalidade casual”, como, por exemplo, incontáveis trolls no Twitter todos os dias? Comunicação e habilidades sociais são as duas razões pelas quais nos tornamos o predador perfeito que tomou o controle do planeta, mesmo assim, esse conjunto de habilidades compromete a integridade da nossa saúde pública quando pinçamos a gritaria imatura nas redes sociais. Como ela diz, com um meio sorriso:

 

A melhor coisa para o sistema nervoso de um ser humano é outro ser humano, mas a pior coisa para o sistema nervoso de um ser humano é outro ser humano

 

Esse problema é especialmente perigoso para crianças. Bullying e abuso tem efeitos a longo prazo. Crianças que sofrem bullying adoecem com mais facilidade durante a vida devido ao sistema imunológico comprometido. Nelas, neurônios no hipocampo e em parte do córtex pré-frontal morrem. As chances de desenvolverem diabetes, doenças cardíacas e certos tipos de câncer aumentam.

Ainda pior, suas vidas podem ser encurtadas. A capa protetora no final de seus cromossomos se chamam telômeros. Toda vez as células se dividem, os telômeros diminuem. Quando eles ficam muito pequenos, você morre. Um dos maiores adversários do comprimento dos telômeros é o estresse. Crianças que sofrem bullying têm vidas mais curtas.

Barrett se lembra do ditado “o que não nos mata, nos fortalece”. Bem… seus neurônios podem morrer… [em inglês, o ditado é “sticks and stones can break my bones, but names can never hurt me”, que, em tradução literal seria algo como “paus e pedras podem quebrar meus ossos, mas xingamentos não podem me machucar”. Berrett corrompe o ditado terminando-o com “names can kill neurons”, traduzido, “xingamentos podem matar neurônios”]. Já que nosso sistema legal não associa palavras a dano, ela acredita que nossa sociedade está mal preparada para lidar com o bullying mais sutil. E esse não é mais um fenômeno da infância. Nós elegemos um dos maiores perpetradores de bullying [Trump]. O que uns chamam de força é, na verdade, destruição em massa. Mas a culpa não é só dele.

 

Se você olhar que tem acontecido com o discurso público e entretenimento na última década, poderá ver que temos uma cultura de “brutalidade casual”. A maneira como as pessoas se tratam se deteriorou muito.

 

Ela menciona uma pesquisa feita com as comédias televisivas que investigou a frequência com que abuso verbal, bullying e relações agressivas ocorrem. Uma vez a cada quatro ou cinco minutos um personagem é denegrido, geralmente seguido das risadas do auditório. A vítima muitas vezes reage casualmente, ignorando a ofensa cometida. Não é assim que acontece na vida real.

Barrett admite não ser advogada e que não é preparada para lidar com as especificidades da lei. Mesmo assim, ela acredita que a dor emocional deve ser levada em consideração. A longo prazo, a dor é mais danosa às vítimas. Como a dor emocional não é tão quantificável quanto uma perna quebrada, é difícil determinar os efeitos de bullying e do abuso verbal. Mais de vinte porcento das crianças reportou já ter sido vítima ou ter cometido bullying, enquanto treze porcento já se envolveram com bullying eletrônico. A dor e sofrimento delas é real.

Embora a abordagem do problema seja incerto, Barrett diz que a pesquisa é clara e rejeita qualquer ideia de que os resultados tenham uma inclinação esquerdista [“liberal”, no original]; as evidências não são discutíveis. E não está afetando apenas crianças. Ela diz que o número record de pessoas tomando opióides, ansiolíticos e antidepressivos são parte de um problema maior. Palavras podem machucar.

 

Se nós quiséssemos criar, propositalmente, um ambiente que fizesse as pessoas doentes e angustiadas, não teríamos atingido tanto sucesso. Esse é o motivo pelo qual muitas pessoas pensam que o atual clima político nos Estados Unidos é um problema de saúde pública muito grave.

 

Nosso clima político tóxico está causando danos irreparáveis ao sistema nervoso ao país. Não podemos mais nos virar para os líderes eleitos em busca de uma direção, o que nos leva a questionar suas capacidades de liderança. Nossa expectativa de vida está sendo encurtada a cada tweet. E esse lento fluxo de insultos não beneficia ninguém, nem vítimas nem perpetradores. Quanto mais demorarmos a perceber isso, mais sofreremos.

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