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Bactericidas podem ajudar bactérias a resistir a antibióticos

Artigo original por Bob Holmes

Tradução Bruno Perissotti


Uma mão lava a outra na resistência a medicamentos.

 

Se combater bactérias de uma forma é bom, então de duas formas deve ser ainda melhor. Nem sempre: um antibacteriano amplamente utilizado em sabonetes e produtos de limpeza ajuda micróbios como MRSA a vencer antibióticos potentes.

A substância é o triclosan. Não é um antibiótico, mas um composto diferente que, em vez de matar a bactéria, impede seu crescimento.

O Triclosan é tão difundido que há a preocupação que possa estimular a bactéria a desenvolver resistência a ele, se tornando assim um problema para hospitais que usam antibacterianos para evitar proliferação de infecções. Essa preocupação levou a FDA (Food and Drugs Administration; uma agência de controle de medicamentos e segurança alimentar dos EUA) a banir o uso de triclosan em sabonetes para mãos, e a FDA estuda novas restrições.

Há mais razões para se preocupar com efeitos mais graves. Para comprovar se bactericidas podem afetar a performance de antibióticos, Petra Levin e Corey Westfall, da Universidade Washington em St Louis, no estado de Missouri, expuseram Escherichia coli a antibióticos comuns, junto com o triclosan, e observaram sua sobrevivência durante 20 horas.

Quando as bactérias foram expostas aos antibióticos estreptomicina ou ciprofloxacina, junto com triclosan, tiveram 10.000 vezes mais chances de sobrevivência do que as que receberam apenas estreptomicina ou ciprofloxacina. Mais testes revelaram que o triclosan protege a superbactéria MRSA (em português: SARM, Staphylococcus aureus resistente a meticilina) contra vancomicina, um antibiótico fundamental comumente usado em último caso contra infecções de MRSA (disponível em bioRxiv, DOI: 10.1101/090829).

“O triclosan protege a superbactéria MRSA contra a vancomicina, um tratamento de última instância”

Não sabemos por que o triclosan tem esses efeitos, mas uma explicação pode ser os diferentes funcionamentos de antibióticos e antibacterianos. A maioria dos antibióticos matam bactérias ao interferir com estágios essenciais de seu ciclo de vida, como a produção da parede celular. Como o triclosan impede o crescimento de bactérias, elas não passam por tantos estágios de vida e, por isso, se tornam imune aos antibióticos. “Uma célula inativa não tem muitos alvos ativos, então não há muito o que atacar,” disse Kim Lewis da Universidade Northeastern em Boston.

Não sabemos ainda se o triclosan pode estar ajudando as bactérias a sobreviver nos organismos de pacientes que passam por tratamentos de antibióticos. Até sabermos mais, pode ser necessário que essas pessoas cortem sua exposição ao triclosan.

O problema é que não é tão simples assim. “Triclosan está em toda parte”, diz Nathalie Balaban da Universidade Hebraica de Jerusalém em Israel. “Você está dando um tratamento e nem está ciente que ele está lá.”

O triclosan pode ter mais um efeito. Tratamento com antibióticos geralmente procura matar toda a bactéria que causa uma infecção — se sobreviverem, os micróbios podem passar adiante quaisquer genes que os ajudaram a resistir ao medicamento. Ao permitir que a bactéria sobreviva na presença de antibióticos, o triclosan pode acelerar sua habilidade de desenvolver essa resistência. Se for o caso, pode ser um bom argumento para mais restrições de seu uso, diz Lewis.

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